Os infinitos caminhos que a vida nos coloca e a eterna necessidade de tomar decisões, nos leva sempre a termos que optar entre escutar e acatar os conselhos e experiências dos mais velhos, ou arriscar à tomarmos decisões próprias assumindo a responsabilidade das conseqüências pela nossa ousadia.
Esta lei, que se aplica para tudo na vida, não é diferente na atividade da ornitoculutra, e mais especificamente da canaricultura que escolhemos como atividade mais apaixonante.
Muitos mitos já vimos serem derrubados depois de muitos anos ou décadas de serem considerados verdades absolutas. Afirmava-se que o fator intenso em dose dupla era fator letal, sendo que hoje é extremamente comum vermos intensos homozigotos criando normalmente. Afirmava-se que a forma ideal de pigmentar os canários era misturando Carophill com Farinha láctea e todo mundo (no Rio pelo menos) aplicava este sistema como infalível. Afirmava-se que o fator marfim ajudava na plumagem dos canários, etc. etc.
Sempre ouvi falar que era imprescindível o uso de tela mosquiteira no canaril, pois os pernilongos eram os causadores de “pipocas” infecciosas nos pés, muito difíceis de curar e que poderiam inclusive causar a morte dos pássaros.
Assim sendo, sempre tomei (como todos os criadores) extremo cuidado em colocar em todas as janelas do canaril, telas mosquiteiras para impedir a entrada de insetos, e toda vez que por um descuido entrava um pernilongo, era como ver o diabo. O bichinho era implacavelmente perseguido até garantir a sua morte.
Mesmo assim, vez ou outra aparecia a tal da “pipoca” no pé de algum canário e devia tratar com iodo, pomadas, e todo tipo de remédio que pudesse surtir efeito.
Alguns anos atrás, me chamou a atenção que os canários que levava para o nosso negócio, não apresentavam qualquer tipo de problema nas patas, embora não tivesse nas janelas a tela mosquiteira, e pudesse constatar a presença de pernilongos no local. Coincidentemente também, observei que depois que passei a vacinar os canários contra bouba os problemas dos pés diminuíram quase que totalmente.
Deduzi que uma explicação possível para o não aparecimento das pipocas e ferimentos nas patas, poderia ser atribuído à um aumento da resistência das aves uma vez vacinadas.
Desta forma, resolvi fazer um teste e trocar as telas mosquiteiras de um dos meus cômodos, por tela tipo viveiro, de malha muito maior, que permitisse uma melhor renovação do ar, e apenas impedisse a entrada de outras aves ou roedores no canaril.
O local da minha criação, por estar rodeado de muita vegetação e clima tropical, se caracteriza pela presença no ano todo de uma grande quantidade de pernilongos.
A minha surpresa foi grande ao constatar que nenhum problema de pés se apresentava mesmo com a facilidade dos mosquitos para entrar no recinto.
Assim sendo, resolvi trocar a tela dos 5 cômodos da minha criação, e o resultado foi o mesmo, ou seja, nenhum problema com os pés dos canários.
Este resultado me deixou bastante animado, pois desta forma poderia aumentar consideravelmente a renovação de ar do canaril, sem por isso estar colocando em risco a saúde dos pássaros.
A primeira vez que ouvi falar em vacina contra bouba para canários, foi na casa do Sr. Roberto Mendes em Campinas, aproximadamente 15 anos atrás, quando por ocasião de uma visita ao seu criadouro, vi que estava “espetando” todos o seus canários. Me explicou que esta vacina prevenia contra a única doença que poderia matar todo o plantel em poucos dias, e desde então, passei a vacinar todos os meus canários anualmente.
A surpresa ocorreu ao ver que a vacina reduzia drasticamente as ocorrências de ferimentos, unhas grossas e pipocas nos pés, ao ponto de não mais precisar proteger o canaril contra insetos.
Extremamente respeitoso dos conselhos dos mais velhos, resolvi arriscar uma experiência que a principio parecia impossível, mas deu certo.