O PASSARINHEIRO 

 Por Álvaro Blasina

     Abro o dicionário, e procuro este termo tão usado em nosso meio Passarinheiro: ,s. m. Caçador, criador ou vendedor de pássaros.  Analiso a definição e fico surpreso ao verificar que o caçador (leia-se traficante) e o criador (leia-se preservador) são colocados no mesmo grupo. O vendedor, idem e o usuário final, aquele que tem alguns pássaros, excluído. Esta definição tão desastrada do dicionário, reflete o que efetivamente ocorre em nossa sociedade quando de pássaros se fala. Uma total desinformação e opiniões encontradas sobre o que é ético e o que não.

       Visitando a Feira de Caxias, famosa pela sua diversidade e principalmente pela venda de implementos para pássaros tais como gaiolas, alimentos, e inúmeros complementos, vi na sua rua principal, inúmeras pessoas oferecendo animais capturados ilegalmente.

                Num primeiro segundo, a curiosidade nos invade. Logo à seguir, a indignação toma conta de nós. Pássaros de inúmeras espécies, oferecidas abertamente, para quem quiser ver, sem a menor dor. Literalmente empilhados nas mais deploráveis condições. Curió à R$ 20, canário da terra e coleirinha por R$ 10,00, cardeais, pichanchão, papagaios filhotes, etc. etc. Até redes enormes para caça, são oferecidas normalmente.

                Não cabe a mim, nem é o objetivo deste artigo, a análise dos inúmeros motivos que levam essas pessoas a “viver” do tráfego de animais.

                O que sim desejo analisar, é o perfil do comprador desses pássaros. Uma pessoa numa atitude absolutamente contraditória. Diz gostar de pássaros e consegue aceitar essa visão quase que holocáustica de seres tão bonitos, sendo expostos à pior das humilhações.

                É chegada a hora de entendermos que deve  existir um enorme divisor de águas entre o traficante e o criador. Jamais devem ser confundidos nem incluídos no mesmo grupo, pois são antagônicos. Um depreda; o outro gera a vida. Um carece de qualquer sensibilidade; o outro à tem aguçada. Um pensa que passarinho não sofre; o outro conhece o temperamento de cada um e tem cuidado extremo para evitar o seu stress.

                O elo que falta para avançarmos nesse campo, é a informação. Ainda vejo indignado, como os apreciadores de pássaros silvestres encaram com naturalidade o fato dos pássaros que possuem serem caçados e não criados em cativeiro. 

                O comprador final, deve entender que um enorme esforço está sendo feito pelos heróis que criam diversas espécies em cativeiro. A seleção genética já efetuada principalmente nos casos dos curiós, bicudos, coleiros e canários da terra, tende a inibir a compra de espécimes ilegais, não só pelas penalidades que isto pode representar, como também pela abismal diferença de qualidade entre uns e outros.

                A tranqüilidade de consciência de adquirir um pássaro sem depredar a natureza, de saber que nenhuma ilegalidade foi cometida, de saber que o padrão genético e sanitário são superiores, devem ser argumentos mais que suficientes para estimular o comprador a escolher o caminho certo. Evidente resulta que os preços são outros, à final, um carro roubado e outro em lei também tem preços diferentes embora do mesmo modelo e ano. O criador gastou muito para fazer suas instalações, comprar as gaiolas, as matrizes, e se fez de muita paciência até ver os primeiros ovinhos aparecerem, e eclodirem. Os pássaros que obteve, são muito mais do que aves, são obras primas e sementes de esperança por um mundo melhor, onde possamos ficar livres desse “fantasma” que acomete tantas espécies, chamado extinção. Uma espécie extinta, é uma obra prima de Deus que jamais poderá ser vista. A maior das agressões que possamos imaginar.

                Esta tarefa, não é  exclusividade do Ibama, ou dos outros. É de todos nós, para tomarmos consciência do mal que está sendo causado.              

                Quem sabe, um dia nossos netos abrirão o dicionário e na palavra Passarinheiro nunca mais verão incluído o caçador.
 

 

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